Rodotrem multifuncional mira eficiência na logística da cana – Transporte Moderno

16/09/2026

Movimentar mais de 700 milhões de toneladas de cana entre lavouras e unidades de processamento ajuda a dar a dimensão do desafio logístico do setor sucroenergético brasileiro. Para a safra 2026/27, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma produção de 705,2 milhões de toneladas, 4,7% superior à do ciclo anterior. Só São Paulo deverá responder por 362,8 milhões de toneladas.

É nesse fluxo que a Sergomel pretende ganhar espaço com uma proposta diferente: concentrar em um único rodotrem funções que podem exigir implementos distintos ao longo da operação agrícola. O Rodotrem Multicargas combina transporte e autodescarga e foi desenvolvido para atuar em diferentes etapas da logística. Pode movimentar cana e materiais agrícolas a granel, mudas, toletes e rebolos, realizar transferência de materiais e abastecer plantadoras. Também pode transportar e descarregar biomassa, como bagaço.

“A inovação não está simplesmente em criar um Rodotrem com maior capacidade, mas em transformar um implemento tradicionalmente dedicado ao transporte em uma plataforma logística multifuncional”, afirma Vagner Gomes, diretor Comercial da Sergomel. Fora do setor sucroenergético, a fabricante prevê aplicações para cargas com características semelhantes, como cama de frango e esterco.

Menos peso, mais carga

Outro eixo do projeto está na redução do peso estrutural. O chassi central plano utiliza aço de alta resistência, solução que, segundo a fabricante, permite diminuir a tara e converter o peso economizado em maior capacidade de carga.

O efeito é especialmente relevante quando a operação está limitada pelo peso máximo permitido para a composição. Nesse caso, um implemento mais leve não significa necessariamente menor consumo de combustível por quilômetro, já que o espaço liberado tende a ser utilizado para transportar mais mercadoria.

O ganho aparece em outra conta: mais toneladas movimentadas por viagem podem reduzir o consumo de combustível por tonelada-quilômetro e, dependendo do volume da operação, diminuir a quantidade de viagens necessárias. A redução potencial se estende a pneus, manutenção e emissões por tonelada transportada.

A Sergomel informou capacidade volumétrica de 18 m³ por caixa na configuração com “fominha”, mas não detalhou a tara, a capacidade líquida de carga ou o ganho efetivo proporcionado pela redução de peso.

Descarga sem sair da cabine

A autodescarga é outro diferencial do projeto. O sistema eletro-hidráulico pode ser acionado por controle remoto sem fio, permitindo ao motorista comandar a operação sem sair da cabine. O sistema utiliza três pistões telescópicos de dois estágios e dupla ação por caixa. A geometria interna foi desenvolvida para facilitar o escoamento da carga, enquanto dispositivos direcionam o material para fora da região dos pneus, evitando que seja depositado sob o rodado.

Para aumentar a estabilidade durante a descarga, o equipamento pode receber patolas com acionamento manual ou pneumático. O conjunto conta ainda com freios ABS, circuitos de serviço e emergência e spring-brake em um dos eixos. Segundo a fabricante, o chassi e os reforços estruturais foram dimensionados para suportar os esforços provocados pelo içamento e pelos sucessivos ciclos de carga e descarga.

O cavalo-mecânico deve ter capacidade de tração compatível com o PBTC da composição. A potência necessária varia conforme peso bruto, topografia, velocidade operacional e aplicação. A circulação de combinações de veículos de carga também está sujeita às regras estabelecidas pelo Contran e, dependendo do peso, comprimento, configuração e da via utilizada, pode exigir Autorização Especial de Trânsito (AET).

Versatilidade precisa aparecer na conta

A Sergomel afirma que o Multicargas já foi testado e está sendo utilizado por diferentes clientes, mas não revelou quais são essas operações nem apresentou indicadores de produtividade, disponibilidade ou redução de custos obtidos em campo. Também não informou o tempo necessário para realizar a autodescarga, quanto o uso de aço de alta resistência reduz a tara nem qual é o aumento efetivo da carga útil por viagem.

O preço é outro dado que varia conforme a configuração solicitada pelo cliente. Por isso, a fabricante não estabelece um valor padrão de aquisição nem prazo estimado para retorno do investimento.

São justamente esses indicadores que deverão mostrar até onde a versatilidade técnica se converte em ganho econômico. Em um setor que deverá movimentar mais de 705 milhões de toneladas de matéria-prima nesta safra, pequenas diferenças de carga por viagem, tempo de descarga e disponibilidade dos equipamentos podem ganhar escala rapidamente.

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