Reforma tributária pode elevar em 414% a carga do transporte do agro – Transporte Moderno

14/07/2026

A seis meses do início da fase de transição da Reforma Tributária, prevista para janeiro de 2027, transportadoras que atuam no agronegócio começam a calcular os impactos das novas regras. Um estudo da consultoria Rumo Brasil projeta um aumento médio de 414,44% na carga tributária dessas empresas apenas com a implementação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), tributo federal que substituirá PIS e Cofins.

O levantamento chega em um momento delicado para a cadeia logística do agro. Em entrevista concedida à Agência Transporte Moderno em abril, o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Lucas Costa Beber, afirmou que a compra de caminhões deixou de ser prioridade para muitos produtores rurais. Segundo ele, os juros elevados e o aumento do custo do crédito reduziram a capacidade de investimento do setor, levando ao adiamento da renovação da frota.

“O que seria lucro do produtor hoje está sendo consumido pelo pagamento de juros”, afirmou Beber na ocasião. Segundo ele, muitos produtores passaram a direcionar recursos para manter a operação e renegociar dívidas, adiando investimentos em máquinas e caminhões.

Agora, a perspectiva de aumento da carga tributária sobre as transportadoras adiciona uma nova variável ao planejamento financeiro da cadeia logística do agronegócio.

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Impacto superior a R$ 144 milhões

O estudo da Rumo Brasil foi desenvolvido ao longo de três meses com base em dados reais de empresas associadas à Associação Nacional das Empresas Agenciadoras de Transporte de Cargas (ANATC), incluindo algumas das maiores transportadoras do país. Foram analisadas obrigações acessórias, documentos fiscais, demonstrações contábeis e controles internos referentes às operações realizadas em 2025. As empresas avaliadas somam R$ 6,6 bilhões em faturamento anual e aproximadamente R$ 5 bilhões em subcontratações.

Considerando exclusivamente os efeitos da CBS, a consultoria estima um impacto financeiro superior a R$ 144 milhões. “O debate sobre a Reforma Tributária tem sido marcado por muitas interpretações e projeções, mas ainda havia pouca informação baseada em dados concretos das empresas. Nosso objetivo foi justamente transformar essa discussão em números, permitindo que o setor compreenda, de forma prática, os efeitos da nova legislação sobre suas operações”, afirma Rafael Brito, CEO da Rumo Brasil.

Subcontratação explica maior parte do aumento

Segundo o levantamento, o principal fator para o crescimento da carga tributária está na própria estrutura operacional do transporte rodoviário de cargas voltado ao agronegócio. Boa parte das operações é realizada por meio de subcontratação de transportadores, característica que altera significativamente o aproveitamento de créditos fiscais previsto na nova legislação.

“A subcontratação é uma característica estrutural do transporte rodoviário de cargas, especialmente no agronegócio. Quando a dinâmica de aproveitamento desses créditos muda, o impacto financeiro se torna bastante relevante para empresas que já operam com margens reduzidas e elevada pressão por eficiência”, explica Brito.

Embora o estudo considere apenas a CBS, sem incluir o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que será implantado gradualmente, os números já despertam preocupação entre empresas que dependem de margens reduzidas para operar.

Mudança vai além dos impostos

A consultoria ressalta que a adaptação das empresas não ficará restrita ao aumento da tributação. O novo modelo exigirá maior controle documental, revisão de processos internos e mudanças na gestão fiscal das operações. Cada contratação, documento fiscal e operação passará a influenciar diretamente a apuração dos tributos e o aproveitamento de créditos.

Na avaliação da Rumo Brasil, empresas que iniciarem esse processo de adaptação antes da entrada em vigor das novas regras terão melhores condições de reduzir riscos e preservar a competitividade. “A Reforma Tributária representa uma transformação que vai muito além do pagamento de impostos. As empresas precisarão revisar processos, contratos e estratégias para se adaptar a um ambiente mais complexo. Quanto antes essa preparação começar, maiores serão as condições de reduzir riscos e preservar a competitividade”, afirma Brito.

Reflexos em toda a cadeia

Como o transporte rodoviário responde pelo escoamento da maior parte da produção agrícola brasileira, o aumento dos custos tende a repercutir em toda a cadeia logística. Segundo a consultoria, embarcadores, indústrias e distribuidores poderão absorver parte desse aumento, que, posteriormente, poderá chegar ao consumidor final.

A combinação entre um cenário de crédito ainda caro, menor ritmo de investimentos no campo e a adaptação às novas regras tributárias coloca mais um desafio para um setor considerado estratégico para o agronegócio brasileiro. Embora a regulamentação da Reforma Tributária ainda esteja em andamento, as empresas já iniciam os cálculos para entender como a nova estrutura tributária poderá afetar sua competitividade e sua capacidade de investimento nos próximos anos.

Na avaliação de Ludymila Mahnic, diretora executiva Operacional e Comercial da Mahnic Soluções Logísticas, os desafios vão além do aumento da carga tributária. Segundo ela, a reforma também poderá alterar a relação das transportadoras com fornecedores, especialmente aqueles enquadrados no Simples Nacional, caso o novo modelo reduza o aproveitamento de créditos tributários. A executiva alerta ainda para possíveis perdas decorrentes da substituição de benefícios atualmente existentes, como os créditos de ICMS.

Apesar desse cenário, a Mahnic mantém seus planos de investimento e expansão, mas afirma que as mudanças já exigem uma postura mais cautelosa. A empresa iniciou a revisão de processos internos, contratos com clientes e fornecedores, além da adequação dos sistemas de gestão para atender às novas exigências fiscais. Também acompanha a regulamentação da reforma para ajustar sua estratégia de precificação e planejamento tributário.

Como atua no transporte do agronegócio, a companhia avalia que o aumento dos custos tributários poderá comprometer a competitividade de toda a cadeia logística e pressionar o preço final dos produtos. Para Ludymila, a preparação antecipada será fundamental para reduzir os impactos da transição.

“A integração entre as áreas fiscal, jurídica, financeira, comercial e operacional será decisiva para garantir uma transição segura e sustentável, evitando impactos sobre o capital de giro e assegurando previsibilidade para a tomada de decisão”, finaliza Ludymila.

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