A procura por galpões logísticos de alto padrão continua superando a oferta no Brasil e tem provocado uma escalada nos preços de locação. A taxa de vacância — indicador que mede a proporção de áreas disponíveis para aluguel — caiu para 6,5% no primeiro trimestre de 2026, o menor nível desde 2020. Com menos espaços livres, especialmente nas regiões próximas aos grandes centros consumidores, o valor pedido pelos proprietários subiu 16% em termos reais nos últimos cinco anos, passando de R$ 25,20 para R$ 29,20 por metro quadrado, segundo levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS).
Os dados consideram condomínios logísticos das classes A+, A, B e C e mostram que os prestadores de serviços logísticos (3PLs) e as empresas industriais lideram a ocupação dos empreendimentos, com 27% da área locada cada. Na sequência aparecem empresas de comércio eletrônico, responsáveis por 20% da ocupação, e o varejo, com 18%.
Segundo Monica Barros, sócia-executiva do ILOS, a liderança compartilhada entre operadores logísticos e indústrias reflete estratégias diferentes de utilização dos galpões. “Enquanto a indústria ocupa espaço para suas próprias operações, os prestadores de serviços logísticos consolidam volumes de múltiplos clientes, viabilizando escala para quem opta pela terceirização logística”, afirma. A executiva ressalta que parte da área ocupada pelos operadores atende justamente empresas industriais e plataformas de comércio eletrônico, o que significa que a demanda efetiva desses segmentos é ainda maior do que os números indicam.
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Indústria amplia estoques
A queda da vacância não pode ser explicada apenas pelo avanço do comércio eletrônico. Um dos principais motores da demanda vem da indústria, que voltou a ampliar estoques estratégicos depois das rupturas provocadas pela pandemia, pela crise global dos contêineres e pelas tensões geopolíticas.
Como mostrou reportagem da Transporte Moderno, fabricantes de segmentos como automação industrial, energia, equipamentos elétricos e manufatura passaram a antecipar compras de componentes considerados críticos para reduzir riscos de interrupção da produção. O movimento representa uma mudança em relação ao modelo de estoques mínimos (just in time), predominante nas últimas décadas, e elevou significativamente a procura por áreas de armazenagem.
Na prática, armazenar voltou a ser encarado como uma estratégia para garantir a continuidade da produção, e não apenas como um custo operacional.
E-commerce mantém pressão
Ao mesmo tempo, o comércio eletrônico continua expandindo sua infraestrutura logística. Empresas como Mercado Livre e Shopee seguem ampliando suas redes de centros de distribuição para reduzir prazos de entrega e aproximar estoques dos consumidores.
Essa estratégia aumentou a disputa por galpões modernos em polos logísticos como Cajamar, Guarulhos, Campinas e Extrema (MG), considerados estratégicos para abastecer os principais mercados consumidores do país.
Além da expansão física, as plataformas digitais buscam maior controle sobre prazos, custos e qualidade das entregas. O movimento também impulsiona a demanda por operadores logísticos especializados, que ampliam suas operações para atender tanto o varejo quanto a indústria.
Mercado mais competitivo
A combinação entre retomada da atividade industrial, crescimento do e-commerce e avanço da terceirização logística ajuda a explicar por que a oferta de galpões ficou mais restrita nos últimos anos.
Para as empresas que dependem desses espaços, o cenário exige planejamento cada vez maior. A redução da vacância torna mais difícil encontrar empreendimentos bem localizados, principalmente próximos aos grandes centros urbanos, e fortalece o poder de negociação dos proprietários, refletindo diretamente no aumento dos aluguéis.
Segundo o ILOS, essa tendência deverá continuar enquanto a absorção de novos empreendimentos permanecer superior ao ritmo de entrega de condomínios logísticos. O tema estará entre os destaques do Fórum ILOS 2026, que discutirá os impactos da crescente demanda por armazenagem sobre as cadeias de suprimentos e os investimentos em infraestrutura logística.
A expectativa do mercado é que a demanda permaneça aquecida nos próximos meses, sustentada pelo crescimento das operações de comércio eletrônico, pela reorganização das cadeias de abastecimento e pela decisão de muitas empresas de manter estoques maiores como forma de reduzir riscos operacionais. Esses fatores indicam que a pressão sobre os preços dos galpões logísticos deve continuar, especialmente nos empreendimentos de alto padrão localizados próximos aos principais centros consumidores do país.