Dormir mal pode ser tão perigoso quanto beber antes de dirigir, diz especialista

08/07/2026
dormir mal

Dormir mal pode comprometer a atenção ao volante tanto quanto outros fatores de risco já conhecidos. Especialistas alertam que cuidar da qualidade do sono é uma medida importante para prevenir acidentes e preservar vidas nas estradas. Foto: AndreyPopov para Depositphotos

Dormir pouco ou mal pode comprometer a capacidade de dirigir de forma segura. Embora a embriaguez ao volante seja amplamente reconhecida como um fator de risco para acidentes de trânsito, a fadiga e a sonolência ainda são frequentemente subestimadas, mesmo reduzindo a atenção, o tempo de reação e a capacidade de tomar decisões.

Conforme o médico Alberto Ogata, conselheiro da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), o funcionamento do relógio biológico influencia diretamente o estado de alerta ao longo do dia e pode tornar determinados horários mais críticos para quem está ao volante.

“Dirigir é uma atividade que exige vigilância constante. Em determinados períodos do dia, especialmente durante a madrugada e no início da tarde, nosso organismo apresenta uma queda natural do estado de alerta. Se isso se soma à privação de sono, o risco de microssonos e lapsos de atenção aumenta de forma significativa”, explica.

O relógio biológico interfere na direção

O organismo humano funciona de acordo com um ritmo biológico que regula diversas funções, como o sono, a vigília, a temperatura corporal, a produção hormonal e os níveis de atenção.

Em determinados momentos do dia, principalmente durante a madrugada e logo após o almoço, ocorre uma redução natural do estado de alerta. Se o motorista já estiver cansado ou tiver dormido pouco, essa condição pode favorecer episódios de sonolência ao volante.

De acordo com o especialista, a situação pode se tornar crítica em velocidades elevadas.

Ele lembra que um motorista que adormece por apenas quatro segundos enquanto trafega a 100 km/h percorre mais de 100 metros sem qualquer controle do veículo, distância suficiente para provocar um sinistro grave.

Cada pessoa responde de forma diferente aos horários

Outro aspecto importante é o cronotipo, ou seja, a tendência natural de cada pessoa apresentar melhor desempenho em determinados períodos do dia.

Quando um motorista trabalha em horários incompatíveis com seu relógio biológico, ocorre um desalinhamento que compromete funções cognitivas importantes para a condução, como atenção, memória, percepção de riscos e velocidade de resposta.

Esse problema costuma ser mais frequente entre motoristas profissionais submetidos a jornadas prolongadas, trabalho noturno e períodos insuficientes de descanso.

Segundo Ogata, essa condição favorece o chamado “jet lag social”, associado ao aumento do risco de doenças metabólicas e cardiovasculares.

Ficar muitas horas acordado compromete a direção

Estudos científicos também demonstram que permanecer acordado por longos períodos provoca alterações semelhantes às observadas após o consumo de bebidas alcoólicas.

De acordo com o especialista, aproximadamente 17 horas contínuas de vigília podem comprometer o desempenho de forma comparável a uma concentração de álcool de 0,05%, enquanto permanecer 24 horas sem dormir pode produzir efeitos semelhantes aos de uma alcoolemia de cerca de 0,10%.

“A grande diferença é que o álcool é facilmente reconhecido como um risco. Já a sonolência costuma ser negligenciada. Muitas pessoas acreditam que conseguem resistir ao sono, mas os microssonos acontecem sem que o motorista perceba”, compara.

Distúrbios do sono também aumentam os riscos

A preocupação não se limita ao número de horas dormidas. Distúrbios como apneia obstrutiva do sono, insônia, narcolepsia e síndrome das pernas inquietas podem comprometer a qualidade do descanso e aumentar significativamente o risco de acidentes.

Na apneia, por exemplo, a respiração é interrompida diversas vezes durante a noite, impedindo que o organismo tenha um sono realmente reparador.

Como consequência, a pessoa pode acordar cansada, apresentar sonolência durante o dia e dificuldade para manter a concentração.

Além dos riscos no trânsito, a apneia também está associada ao desenvolvimento de doenças como hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Empresas também têm papel na prevenção

Para Alberto Ogata, reduzir os acidentes relacionados à fadiga não depende apenas dos motoristas.

Segundo ele, empresas que possuem condutores em suas operações devem incorporar a gestão da fadiga às estratégias de segurança e saúde ocupacional.

Entre as medidas recomendadas estão:

  • identificação de distúrbios do sono;
  • avaliações periódicas dos trabalhadores;
  • encaminhamento para diagnóstico e tratamento quando necessário;
  • organização de escalas compatíveis com os períodos de descanso;
  • planejamento de pausas durante a jornada;
  • incentivo para que os profissionais relatem sintomas de fadiga sem receio de punições.

Segundo o especialista, investir em programas estruturados de gestão da fadiga beneficia tanto os trabalhadores quanto as empresas e representa uma importante estratégia para reduzir acidentes e tornar o trânsito mais seguro.

“Quando a empresa enxerga a sonolência como um fator de risco gerenciável, ela protege o trabalhador, reduz acidentes, diminui custos assistenciais e contribui para uma mobilidade mais segura para toda a sociedade”, finaliza.

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