Atlas da Violência liga alta de mortes no trânsito à precarização do trabalho por aplicativos

02/06/2026
Atlas da violência motociclistas

Além da questão econômica, especialistas apontam que o cenário é agravado por uma combinação de fatores. Foto: tgthales@gmail.com para Depositphotos

A motocicleta deixou de ser apenas um meio de transporte para se tornar ferramenta de sobrevivência econômica de milhões de brasileiros — e essa transformação já aparece nas estatísticas da violência no trânsito. O alerta está no Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que relaciona o crescimento das mortes de motociclistas à expansão da economia de aplicativos e à precarização do trabalho urbano.

Conforme o levantamento, o Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito em 2024. As motocicletas estiveram envolvidas em 41,6% desses óbitos. Entre 2019 e 2024, as mortes em sinistros com motos cresceram 38%, passando de 11.182 para 15.459 vítimas fatais. Para os pesquisadores, fatores como jornadas extensas, pressão por produtividade e ausência de proteção social transformaram trabalhadores de aplicativos em um dos grupos mais expostos ao risco letal no cotidiano urbano.

O relatório mostra que a dinâmica da mobilidade urbana brasileira mudou profundamente nos últimos anos. Em muitas cidades, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, a motocicleta passou a ocupar papel central tanto no deslocamento quanto na geração de renda.

A moto como ferramenta de trabalho

O Atlas da Violência destaca que a expansão da economia de aplicativos consolidou a motocicleta como instrumento de trabalho e sobrevivência econômica para parcelas vulneráveis da população. O fenômeno se intensificou especialmente após a ampliação dos serviços de entrega e transporte individual mediados por plataformas digitais.

Com menor custo em comparação ao automóvel e maior facilidade de circulação nos centros urbanos, a moto se tornou alternativa rápida para quem busca renda imediata. O problema, segundo os pesquisadores, é que o aumento do tempo de exposição ao trânsito acaba ampliando também o risco de envolvimento em sinistros graves e fatais.

O estudo chama atenção para fatores que passaram a fazer parte da rotina de muitos motociclistas:

  • pressão por entregas rápidas;
  • longas jornadas de trabalho;
  • necessidade de realizar maior número de corridas;
  • fadiga física e mental;
  • circulação constante em ambientes urbanos de alto risco.

Embora o Atlas não responsabilize diretamente os aplicativos pelas mortes, o documento aponta que a lógica de produtividade e a precarização das relações de trabalho alteraram o perfil da mortalidade viária brasileira.

Segurança viária passa também pelas condições de trabalho

Para especialistas em trânsito, os números mostram que a discussão sobre segurança de motociclistas precisa ultrapassar a ideia de imprudência individual.

“O trânsito começa a refletir uma lógica de trabalho em que parar significa ganhar menos. Isso cria um ambiente de pressa permanente, em que o motociclista muitas vezes troca descanso, alimentação e até segurança por produtividade”, analisa Celso Mariano, especialista e diretor do Portal do Trânsito.

De acordo com ele, o crescimento da mortalidade entre motociclistas não pode ser observado isoladamente. É preciso considerar as transformações recentes da mobilidade urbana e das relações de trabalho. “Hoje muitos motociclistas passam 10, 12 horas expostos ao trânsito diariamente. É diferente do uso ocasional da moto. Estamos falando de pessoas que vivem dentro de um ambiente de risco durante praticamente o dia inteiro”, explica.

O especialista destaca ainda que a vulnerabilidade física do motociclista amplia as consequências de qualquer falha no sistema viário. “Quando você soma pressão por tempo, cansaço, vias inseguras, tráfego intenso e um veículo que oferece pouca proteção ao corpo humano, o resultado aparece nas estatísticas de mortes”, afirma.

Regiões Norte e Nordeste concentram cenário mais crítico

O Atlas da Violência aponta que as regiões Norte e Nordeste concentram alguns dos cenários mais preocupantes do país quando o assunto é mortalidade de motociclistas.

No Piauí, por exemplo, as motocicletas estiveram envolvidas em 72,7% das mortes no trânsito registradas em 2024, índice muito acima da média nacional.

O estudo relaciona esse cenário ao crescimento do uso da motocicleta como principal ferramenta de trabalho e mobilidade em estados com menor cobertura de transporte público e maior presença da informalidade.

Além da questão econômica, especialistas apontam que o cenário é agravado por uma combinação de fatores, como infraestrutura viária precária, ausência de espaços seguros para circulação e fiscalização insuficiente. Além disso, crescimento acelerado da frota e a própria vulnerabilidade física do motociclista em caso de sinistros.

Debate deve envolver formação, infraestrutura e prevenção

O relatório também reforça que o enfrentamento da violência no trânsito exige políticas públicas integradas. A discussão envolve educação, infraestrutura segura, planejamento urbano, fiscalização e condições de trabalho.

Para Mariano, o debate precisa considerar que o trânsito brasileiro mudou rapidamente, mas as políticas públicas nem sempre acompanharam essa transformação. “A motocicleta cresceu muito mais rápido do que a capacidade das cidades de absorver esse aumento com segurança. Em muitos locais, faltam infraestrutura adequada, planejamento e políticas voltadas especificamente para quem trabalha sobre duas rodas”, avalia.

O especialista também chama atenção para a necessidade de qualificação permanente dos condutores profissionais. Além disso, para os impactos das recentes flexibilizações regulatórias no processo de formação de condutores.

“Quando a moto vira instrumento de sustento, a formação deixa de ser apenas uma exigência burocrática. Ela passa a ser ferramenta de proteção à vida”, conclui.

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