Operadores logísticos movimentaram R$ 247 bilhões no ano passado

22/09/2026

Perfil 2026 dos operadores logísticos no Brasil mostra progresso do setor, expansão da atuação e geração de empregos

Redação TranspoData

Foto ABOL, Divulgação

Os operadores logísticos (OLs) ampliam a relevância na economia brasileira e começam a explorar de forma mais estruturada uma das principais oportunidades para aumentar a eficiência da matriz de transportes do país: a multimodalidade. No ano passado, o segmento faturou R$ 247 bilhões, o equivalente a quase 2% do PIB e 20% dos gastos nacionais com transporte e armazenagem. Pela primeira vez, o estudo revela que, em média, 31% dos OLs oferecem serviços envolvendo mais de um modal. Na perspectiva da carga, 20% passam por dois ou mais modais na mesma operação.

Os dados fazem parte do novo Perfil dos Operadores Logísticos no Brasil, lançado em setembro. O mapeamento foi encomendado pela Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) ao Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS). Realizado a cada dois anos, o levantamento acompanha a evolução dos serviços logísticos prestados, as características, os desafios e as perspectivas do segmento. Serve como um balizador tanto para a associação como para o próprio mercado e os diferentes elos da cadeia.

Nesta versão, um capítulo específico sobre a multimodalidade ganha destaque, ao lado de indicadores de desempenho financeiro, abrangência territorial e de segmentos atendidos, investimentos, tecnologias, mão de obra e relacionamento com o poder público. O setor reúne atualmente cerca de 1.500 OLs, alta de 15% em relação à edição anterior. O faturamento avançou 18%, enquanto 64% ampliaram a área de atuação, desde a última análise. Os 32 filiados à ABOL somam R$ 45 bilhões em faturamento (18% do mercado) e 17% dos maiores OLs concentram 77% da receita total.

O resultado mostra que 31% dos OLs atuam nas cinco regiões brasileiras e 31% oferecem logística internacional. O Sudeste volta a registrar o maior número de instalações e operações, seguida pelo Sul. Isso revela uma quebra na evolução verificada dois anos atrás, quando as regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte, nessa ordem, demonstravam incremento.

Essa capilaridade geográfica se reflete também na diversidade de segmentos atendidos. Os OLs prestam serviços a praticamente todas as atividades econômicas, com ênfase, em 2025 e 2026, para os de maior valor agregado: automotivo e autopeças (69%), cosméticos (62%) e eletroeletrônicos (59%). Anteriormente, o mercado de bebidas liderava o ranking.

Mercado de trabalho, investimentos e desenvolvimento

A expansão também se reflete na geração de empregos. Em 2025, o grupo foi responsável por 983 mil postos diretos e, considerando os indiretos e as cadeias periféricas, chegaram a 2,8 milhões de pessoas – 2,7% da população ocupada no Brasil. Na arrecadação, foram R$ 57 bilhões em tributos e encargos, sendo R$ 8,5 bilhões gerados pelos associados da ABOL.

Cerca de sete em cada 10 operadores registraram crescimento de receita e da carteira de clientes, acompanhado por contratações e aportes. A margem de lucro, porém, avançou em ritmo inferior ao faturamento, pressionada pelos custos, em particular com combustíveis: 44% reajustaram os preços abaixo da alta de despesas e apenas 34% obtiveram repasse similar ou superior.

Os investimentos seguem concentrados sobretudo em softwares (83%) e modernização das instalações (78%). A frota ganhou espaço e já é foco de 64% das empresas (aquisição ou leasing). Na área de pessoas, 89% investiram em qualificação, porém com queda do valor médio investido por funcionário, quando comparado com 2024. A modalidade de contratação CLT é a predominante (80%).

Conexão ainda enfrenta gargalos

A multimodalidade aparece como uma oportunidade para elevar a produtividade e ampliar as alternativas de transporte, assim como reduzir custos e emissões de gases poluentes, mas ainda esbarra em limitações de infraestrutura, oferta de rotas e integração regulatória, e entre sistemas. Atualmente, em média, 31% disponibilizam soluções multimodais. A participação chega a 44% entre os grandes OLs, contra 29% entre os médios e 19% entre os pequenos. Em termos documentais e regulatórios, 38% possuem habilitação como operador de transporte multimodal (OTM), emitido pela Agência Nacional de Transportes Terrestres, embora 21% ainda não atuem efetivamente com mais de uma modalidade.

A pesquisa também concluiu que as empresas multimodais apresentam maior escala. Atendem, em média, 12 estados e 11 setores econômicos ao mesmo tempo, contra 10 estados e sete segmentos entre os que não oferecem esse tipo de serviço.

Apesar do avanço, a utilização ainda é concentrada: 80% da carga movimentada passa por apenas um modal, 17% por dois e 3% por três ou mais. O rodoviário está presente em 94% das operações, seguido pelo aéreo nacional (21%), aéreo internacional (8%), marítimo internacional (7%), cabotagem (7%), ferroviário (5%) e hidroviário (3%). O transporte aéreo de carga é utilizado principalmente pelo alto volume do e-commerce e de cargas sensíveis, como farmacêuticas e perecíveis.

Sobre os principais entraves para que a multimodalidade seja melhor explorada no Brasil, os OLs apontaram a indisponibilidade de ativos físicos, a baixa qualidade da infraestrutura e a oferta limitada de rotas. Ferrovias e hidrovias receberam as piores avaliações, com notas médias de 3,2 e 3,4, respectivamente, em uma escala de zero a dez. Nos terminais, que conectam os modais, barreiras regulatórias são apontadas como gargalos nas unidades aéreas, portuárias e alfandegárias, enquanto a baixa disponibilidade é o principal problema nos terminais ferroviários e hidroviários.

Para a diretora executiva da entidade, Marcella Cunha, o Brasil ainda pensa muito em modais e pouco em logística integrada. “Os dados mostram que precisamos mudar essa lógica. Não basta ter rodovia, ferrovia, hidrovia, porto e aeroporto, é preciso que essas infraestruturas se conectem de forma eficiente. Os operadores logísticos estão justamente no centro dessa integração por enxergar toda a cadeia. Por isso, ampliar a multimodalidade não é apenas uma agenda do setor, mas uma agenda de produtividade e competitividade para o país”, define.

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