GWM coloca caminhão a hidrogênio em operação com carga pela primeira vez na América Latina

02/09/2026

Veículo de célula a combustível transportou uma carreta com modelos eletrificados da marca em São Paulo e inicia fase de avaliação da tecnologia no mercado brasileiro

Redação TranspoData

GWM, Divulgação

A GWM deu um passo importante na avaliação de tecnologias de emissão zero para o transporte pesado no Brasil. A fabricante realizou, em São Paulo, o primeiro transporte de carga com um caminhão movido a célula a combustível de hidrogênio da América Latina.

A operação aconteceu no dia 25 de agosto e partiu do Laboratório de Hidrogênio do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na Cidade Universitária da USP, com destino ao Autódromo de Interlagos. Durante o trajeto, o caminhão tracionou uma carreta cegonheira carregada com carros e SUVs eletrificados da própria GWM, que seriam utilizados no Festival Interlagos.

Mais do que uma demonstração tecnológica, a operação colocou o veículo pela primeira vez em uma situação real de transporte de carga em território brasileiro. A iniciativa também faz parte de uma estratégia mais ampla da GWM para avaliar a utilização do hidrogênio em aplicações de transporte pesado e avançar na construção de uma estrutura necessária para essa tecnologia no país.

Como funciona o caminhão a hidrogênio

Apesar de utilizar hidrogênio como combustível, o veículo é, tecnicamente, um caminhão elétrico. A energia necessária para movimentar o motor é produzida a bordo por uma célula a combustível, que combina o hidrogênio armazenado nos cilindros com o oxigênio presente no ar.

O processo gera eletricidade para alimentar o motor elétrico e, no escapamento, libera apenas vapor d’água. O caminhão também possui sistema de recuperação de energia durante frenagens e desacelerações, permitindo reaproveitar parte da energia durante a operação.

O conjunto é formado por uma bateria de 105 kWh e cilindros de fibra de carbono capazes de armazenar até 40 kg de hidrogênio, a uma pressão de até 350 bar.

Na configuração apresentada pela GWM, o veículo entrega até 400 kW, equivalentes a 544 cv, e torque de 2.700 Nm. A autonomia pode chegar a 500 quilômetros, enquanto o abastecimento de hidrogênio é realizado em poucos minutos. A fabricante informa ainda que o caminhão pode operar continuamente por mais de dez horas.

Com 49 toneladas de Peso Bruto Total (PBT) e peso vazio de 10,8 toneladas, o modelo também busca combinar capacidade de transporte com eficiência. Segundo a empresa, o peso vazio é cerca de 500 kg inferior à média dos concorrentes considerados na comparação, o que pode ampliar a capacidade útil de carga.

Hidrogênio começa a ser testado no transporte pesado

A chegada do caminhão ao Brasil coloca o hidrogênio em uma discussão que até pouco tempo estava concentrada principalmente em outras alternativas de descarbonização, como eletrificação a bateria e biocombustíveis.

Para o transporte pesado, a autonomia e o tempo de abastecimento são dois dos principais pontos de atenção. Nesse aspecto, a tecnologia de célula a combustível combina propulsão elétrica com a possibilidade de reabastecimento rápido e maior autonomia em comparação com determinadas aplicações de caminhões elétricos a bateria.

A experiência internacional da GWM também é utilizada como base para essa etapa brasileira. Segundo a empresa, mais de 30 mil veículos com tecnologias semelhantes já circulam na China. A subsidiária FTXT, responsável pelo desenvolvimento de tecnologias de célula a combustível e componentes para aplicações com hidrogênio, também acumula experiência com caminhões utilizados em operações de larga escala.

Agora, a companhia começa a avaliar como essa tecnologia se comporta diante das condições e necessidades do mercado brasileiro.

Parceria com o IPT amplia estrutura de testes

Um dos principais desafios para a expansão do hidrogênio no transporte é justamente a infraestrutura de abastecimento. Por isso, a parceria entre GWM e IPT tem papel estratégico nessa fase do projeto.

O Laboratório de Hidrogênio do instituto possui duas estações de abastecimento: uma de 700 bar, destinada a veículos leves, e outra de 350 bar, voltada a veículos pesados. A estrutura permite que o caminhão seja abastecido em São Paulo e cria uma base para novos testes da tecnologia.

A cooperação também prevê estudos relacionados à segurança, desempenho e eficiência energética, além de pesquisas envolvendo tanques de alta pressão. A iniciativa está alinhada às diretrizes do Programa Nacional do Hidrogênio (PNH2), que busca estimular o desenvolvimento tecnológico e a cooperação entre empresas e instituições.

Próximo passo é transformar demonstração em operação

A primeira viagem representa, portanto, o início de uma nova etapa para a GWM Hydrogen no Brasil. A empresa ainda precisa avaliar a tecnologia em diferentes condições de operação, além de avançar na infraestrutura necessária para que o hidrogênio possa ser utilizado de forma mais ampla no transporte de cargas.

O movimento, porém, mostra que a discussão sobre descarbonização do transporte pesado está ganhando novas alternativas. Ao colocar um caminhão de 544 cv e autonomia de até 500 quilômetros em uma operação real de carga, a GWM começa a testar, na prática, se o hidrogênio pode ocupar espaço entre as soluções para reduzir as emissões do transporte rodoviário brasileiro.

Para um setor que exige elevada capacidade de carga, longas jornadas e alta disponibilidade dos veículos, a evolução dessa tecnologia dependerá não apenas do caminhão, mas também da criação de uma cadeia capaz de produzir, armazenar, distribuir e abastecer hidrogênio de maneira competitiva.

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